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Os caçadores de estrelas
Entre as árvores e a noite, despencavam sobre nós dois alguns poucos exemplares de estrelas. A lua se escondera por entre as nuvens, num céu encoberto, mas não menos belo.
Ele me abraçava num calor intenso e mágico e a grama como nosso tapete fazia surgir centenas de duendes alegres.
Sentia vontade de rir de mim mesma, de sentir, de tocar. Sentia vontade de ser o que há muito tempo não era mais. Sentia um furor tamanho e não identificável pelas palavras. E se me esforçasse bem, poderia até ouvir a voz dele cantando Pearl Jam no meu ouvido.
Porém, agora, não seria necessária a recordação. Ele estava ali, ao soar de qualquer música e qualquer beijo demorado. Porque ainda pode haver pérolas e ainda pode haver proteção, basta encontrá-la nos braços certos.
Escrito por Érica Marin às 11h25
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Marcas que não se apagam
As malas no carro representavam o fim de um martírio. Meses sendo amante e seria o fim se ele não tomasse uma atitude logo. Não que ela gostasse da idéia de pressioná-lo, mas a volta pra casa solitária nas sextas-feiras fizeram com que chegasse ao seu limite.
O amor era imenso, mas ao mesmo tempo pequeno demais para que pudesse dividir e a idéia de que suas mãos tocassem outro corpo que não o seu, a conturbavam. Era a outra, mas ao mesmo tempo era única.
Agora aquelas malas e o travesseiro no banco de trás marcavam o início da história possível e o fim das lágrimas de saudade. Agora eles poderiam ligar quando quisessem, andar de mãos dadas. Agora poderiam sentir o gosto da aprovação e esquecer a culpa que sentiam a cada encontro.
No hotel, pela primeira vez ela o viu dormindo. Sentiu a felicidade mais completa que existia. Observou com cuidado cada detalhe de seu rosto. Desejou que aquele momento perdurasse por toda vida. Na verdade, “trocaria a eternidade por aquela noite”.
Cobriu o ombro descoberto, se levantou e escolheu a roupa que ele vestiria no dia seguinte: camisa azul, calça preta. Abriu a bolsa e pegou seu batom mais bonito. Foi embora depois de escrever com ele no espelho: Amo você pra sempre...
Ele deve ter limpado a frase após lavar o rosto, ou então a camareira o fez depois de admirar a declaração tão simples e sincera. Talvez ele nem se lembre mais disso, mas a marca no espelho continua ali, intacta à memória. E toda vez que o vapor do banheiro se espalhar pelo quarto, aquela mensagem ressurgirá, pois o espelho, assim como a pele, pode esconder uma cicatriz profunda, mas nem mesmo o tempo é capaz de apagar uma história que vivemos e nos entregamos. Há coisas que não sai de nós mesmos porque se soma como pedaços de carne, pedaços de sonhos. E não adianta fugir ou tentar esquecer. O medo um dia vai embora e o que fica é isso, a marca.
Escrito por Érica Marin às 22h55
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A verdadeira terapia
Alice era mulher como outra qualquer. Independente, bonita, atraente. Gostava de sair à noite, de dançar, de beber, de fumar. Gostava de dirigir pela cidade, de trabalhar e receber elogios por sua beleza e claro, sua inteligência (que considerava seu melhor atrativo). Mas no fundo, bem no fundo, onde nem ela mesma era capaz de admitir, sonhava mesmo era em se casar, ter uma casa com violetas floridas e filhos educados e amorosos. Alice sonhava, mas em segredo.
Segredo porque já estava cansada de suas frustrações com relacionamentos anteriores, cansada de suas expectativas ideológicas e irreais de encontrar um homem que a entendesse e a completasse. Na verdade, nos últimos tempos ela se convencera de que isso não existia e aproveitava a vida à sua maneira. Ainda era tão nova pra algumas coisas, mas sempre que pensava no futuro, se sentia sem tempo para realizar tanta coisa que planejava. Era como se uma linha do tempo se formasse em sua imaginação e isso a deixava desesperada.
Mas, desesperada mesmo ela ficava quando se via cometendo erros de carência, como inevitavelmente aconteciam vez ou outra. E era sempre a mesma história: no auge de sua solidão, se arrumava, saia, bebia e ficava com alguém. O problema vinha no dia seguinte, ao ter que dizer ao tal carinha que ela já não queria mais. Não gostava de brincar com os sentimentos alheios, mas ainda não estava pronta para se entregar. Estava confusa, fechada pra balanço talvez. Mas ainda assim, Alice odiava se sentir sozinha e então, o mesmo erro prosseguia.
Como não gostava de encarar os fatos, por mais obvios que eles fossem, não procurava ajuda de terapeutas. Imagina! Uma mulher tão auto-suficiente como ela! – pensava.
Ia ao shopping fazer compras. Essa era uma forma tão famosa de esquecer a tristeza!
Nas primeiras aquisições até funcionou, mas depois, ainda que olhasse com muita empolgação para o par de sapatos de couro envernizado novinho que acabara de pagar, não conseguia esquecer seus problemas, ou a falta deles, como o conserto do botão da camisa do marido, a lição de casa do filho, a falta de tempo para o supermercado. Enfim, tudo que via acontecer com as amigas de infância, que já estavam todas casadas e resolvidíssimas enquanto ela ainda se achava uma adolescente.
Isso podia até ser uma carência passageira, afinal, não queria também que sua vida se resumisse ao lar e suas rotinas, mas certamente estava começando a enxergar a vida de forma mais madura e centrada.
Foi aí então que pensou em escrever.
Comprou alguns cadernos para rascunhar, e quando viu já estava na quinta página. Decidiu escrever no computador para agilizar e consequentemente, transformou seus arquivos de word em históricos de uma página gratuita da internet. Assim surgiu sua terapia concreta: textos fictícios ou não que exprimiam seus pensamentos mais ocultos na rede atual mais explícita que existe: os blog’s.
* E ah! Alice resolveu dar tempo ao tempo! Nada melhor que o acaso para lhe trazer ótimas novidades e companhias. Continua no país das maravilhas, mas desta vez, com a exata noção das imperfeições mundanas, alheias e próprias.
Escrito por Érica Marin às 19h45
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O matemático e a escritora
Nem sempre a palavra saudade se torna compreensível a quem ouve e a quem fala. Mas assim como tantos outros sentimentos, ela foi feita para ser sentida, e não tocada ou compreendida. Sentia falta daquilo que de alguma forma lhe parecia especial, e era exatamente nisso que estava pensando agora, já que notou a vontade de saber dele.
Em pouco tempo aquele rapaz de voz doce e suave, com um certo sotaque do interior, cheio de teorias marxistas e explicações políticas complexas, a cativara. E agora que ele estava viajando, sentia falta do poder de pegar o telefone e discar seu número.
Procurou no dicionário o significado da palavra porreta, adjetivo que ele usou para a definir. Não encontrou. Há coisas que não se encontra mesmo em dicionários, manuais, livros ou sites de procura na internet. Há coisas que somente se sabe, mas não se pode explicar.
Ao mesmo tempo que ela construía linhas em seus textos, desenhava formas que ele seria, sem saber. Estava o formulando em sua mente, como costumava fazer, magicamente. Ele agora ganhava um personagem. Saia da vida real para a fictícia (ou seria o contrário?). O personagem efervescente que jorra palavras bonitas e sublimes, inteligentes e cheias de números. O criador e a criatura.
O matemático que ama seus pequenos como a duendes dos mais capazes, e a escritora que expõe em seus arquivos aquilo que nem sempre é capaz de enxergar.
"E eu te recriei só pro meu prazer"
Escrito por Érica Marin às 17h17
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Sinto minha boca adormecida pelo álcool que suga aos poucos a sanidade da minha alma; e contrastante a isso um fervor e uma efervescência que dilata meus poros me fazendo transpirar suavemente os cinco sentidos... minha pele entra em ebulição quando o vejo e isso me mata aos poucos, levando com ele a paz que nunca tive.
Um vício, um alimento. Perigoso, mas necessário. Injusto talvez, mas intenso e quente.
Ele me entende como a um manual e eu observo calada, inerte e muda aos meus pensamentos flutuantes.
("Mais vale uma Alice voando que mil Alices com os pés no chão")
Escrito por Érica Marin às 17h08
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Fadiga
Cansei de ser a santa, mas cansei mesmo é de ser o demônio.
Cansei de culpar os outros, mas cansei mais ainda de culpar a mim mesma.
Na verdade, cansei de ser a má da história. A madrasta com ares de princesa.
Não sou, nem nunca fui.
Sou meus erros e acertos, como todo mundo é, ou deveria ser, pois tem gente que se esquece disso.
Já menti por medo, já menti por amor, já menti por vergonha. Já omiti por tudo isso também, mas nunca soube amar de mentirinha, sempre e invariavelmente.
Quando estou, estou mesmo, não de brincadeira. Quando sinto me exponho, me entrego, falo, choro, grito, bato, apanho.
Não durmo com a dúvida de não ter feito o que podia, pois normalmente luto até o fim e até quebrarem todas as minhas armas. Desistir da batalha por falta de forças? Nunca. Odeio gente covarde e fraca.
Só desisto quando não quero mais ganhar; quando o prêmio já não tem mais o brilho de antes.
Na verdade para isso acontecer é mais rápido que o bater das asas de uma borboleta. Sou instável e me apaixono todos os dias. Gosto da idealização das grandes paixões, do sufoco. Se sinto estabilidade, fujo – apesar de querer tê-la – não consigo viver assim. Quero arder, quero prazer, quero ser.
Quem foi que disse que preciso de calma? Prefiro a emoção, o suspiro e o tremor, o nervoso.
Sou o calor, e odeio o frio.
Sou a noite misteriosa, e odeio o dia comum.
Sou o poder, e odeio a mesmice.
Porque sou o negro e não me interesso pelo claro.
Escrito por Érica Marin às 00h48
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A reinvenção do mundo
Reinventar idéias;
Reinventar planos;
Reinventar a mim mesma;
Sempre, e com tal zelo que assusta. A cada fase um novo sonho, uma nova utopia.
Tudo novo. Será?
Será que esquecemos quem fomos? Que tudo o que vivemos se apaga assim tão facilmente?
Não. Acredito que tudo se renova. Tudo se REINVENTA.
E eu inventei você. Mas agora, cansada dos seus defeitos e erros, reinventei.
Você agora é outro. Outro corpo, outro rosto, outra pessoa.
A reinvenção das palavras de amor e assim, a felicidade que consigo, com muito esforço, desenhar novamente em minhas folhas em branco.
“O nosso amor a gente inventa
pra se distrair
E quando acaba a gente pensa
Que ele nunca existiu”
Escrito por Érica Marin às 16h05
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Dispenso a previsão
Com o tempo percebemos que não adianta fugir de si mesma.
Não podemos controlar o destino nem tampouco prever o que sentiremos.
Não adianta dizer que não amaremos tão cedo, devido a alguma frustração. Quem sabe é o coração, quem sabe é a pele, a mente, o corpo, a alma.
Não adianta não querer quando olhamos e o que temos é o que sentimos. O toque que contagia, o sorriso que não cala, a vida que se colori toda, a cada passo, a cada respiração.
O amor é assim, imprevisível. E ele não quer se esconder, apenas te fere sem querer e depois tenta recuperar toda felicidade que um dia te deu, só que em outras mãos.
Um círculo, um vício ardoroso e sutil, majestoso e sincero, gostoso e sufocante.
Escrito por Érica Marin às 16h38
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E quando olho no espelho já não sei se o que vejo são meus olhos ou apenas pedaços que ficaram para trás, deixados pelo tempo que passou sem que eu mesma percebesse.
Escrito por Érica Marin às 18h30
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Palavras não são escritas; elas nascem. Brotam de dentro da gente como filhos que vêm ao mundo para nos salvar. Nos salvar de nós mesmos, nossos pensamentos e do silêncio que acolhe a solidão.
As palavras nos conhecem mais do que nós a elas. São as desconhecidas mais amigas que poderíamos ter, e estarão sempre ao lado, basta deixá-las sair.
Para que se façam em linhas é necessário sentí-las. São sensíveis e odeiam ser usadas.
Frágeis e fortes, duras ou suaves, não morrem com o tempo – como dizem. São eternas, são marcantes (como fogo na carne viva e pulsante).
Elas escolhem uma a uma as pessoas com que convivem. Selecionados calados e atentos que compreendem a importância da dor, do medo e do amor.
Poder manter uma relação tão íntima com elas garante um universo cheio de personalidade, onde tudo se torna secundário. Por isso diz-se orgulhoso quem delas sobrevive.
O amor às palavras é único, incondicional. Elas não traem, não julgam nem abandonam e se tornam partes do nosso próprio corpo, não envelhecendo nem apodrecendo com ele.
E até nos tempos de introspecção, onde o vazio toma conta de tudo, lá estão elas, acolhedoras e quentes, prontas para mais uma ebulição na fervura de uma nova paixão que as façam explodir para fora, encantando e reiniciando, sem nunca jamais parar.
Escrito por Érica Marin às 06h53
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O gosto que ficou
- Vai para o inferno! – disse ela, saindo do carro no farol vermelho, atravessando a rua pisando fundo.
Ele arrancou com o carro, cantando os pneus.
As lágrimas escorriam pela face furiosa e maquiada. O coração parecia pular pela boca, as pernas tremiam. Ele era um homem horrível, ela o odiava naquele momento. Mas também era o homem mais lindo que já vira, o amor da sua vida. O contraste entre os sentimentos a deixava tão confusa que o oxigênio mal conseguia chegar ao seu cérebro. Por sorte não desmaiou pelas calçadas que apareciam em sua frente instantaneamente.
Mais uma vez se sentia fraca, imatura, culpada.
Sempre as mesmas brigas, as inúmeras discussões, as críticas, a impotência diante das atitudes tão previsíveis dele. O caminho de volta pra casa já não era mais doce como antes e isso a entristecia.
Decidiu ligar. Queria consertar os erros, terminar a história de forma que não se arrependesse ao se deitar na cama. Após muitas tentativas ele atendeu:
- O que você quer?
- Onde você está?
- No inferno! Não foi pra lá que você me mandou ir?
“Seria engraçado se não fosse trágico”, pensou.
- Volta!
E assim se fez. Ora choro, ora sorriso. Ora ódio, ora amor.
Assim se fez o céu, mas também assim se construiu o inferno. O fictício, o real.
E assim nos perdemos.
O adeus jamais existiu, assim como um sim ou um não. As paredes é que não saíram do lugar.
De tudo, somente as fotos.
E o gosto que ficou, somente eu sei. Ou quem sabe, somente nós dois sabemos.
Escrito por Érica Marin às 06h20
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Anjos e demônios
Uma música que me faça parar de pensar.
O raciocínio lógico e extraordinário que entope as veias do meu cérebro não é capaz de paralisar a passagem mórbida de pensamentos fora de moda. A luta entre a inteligência e a burrice começa aí, em um terreno interno, mas tão desconhecido.
Somos anjos e demônios de nós mesmos, de nossos caminhos confusos e nossos objetivos sem foco.
A ponte entre a verdade e a mentira. Mas será que ela realmente existe?
Onde começa o que realmente importa e o que toma ares reais com a medida em que o tempo vai passando?
A desistência da idéia e do plano. O reforço da razão e da consciência. O que deixou passar da época e que ficou tarde demais para recomeçar.
Velhos e caducos os sonhos não são capazes de se concretizar, eles carecem da jovialidade e impulsividade do desejo sagaz.
Somos ridículos e insistentes, sobrevivendo ao tempo inadequado da saúde mental e atingindo o alto grau da felicidade e da tristeza em pequenos e desnorteados segundos de diferença.
Pedaços de carne, sentidos de pele e cheiro, corpo e alma, sonhos e realidade.
Surtos filosóficos nessas mesas tão conhecidas. Diria que mais conhecidas até que mim mesma. Testemunhos vivos de gente que se mata a cada dia e que nasce assim, despretensiosamente, embelezando até mesmo os sentimentos mais feios que um ser humano possa ter.
Pois é, a beleza rara das abstrações cotidianas.
Obras de arte vivas que respiram, nascem, crescem, se reproduzem e morrem. Ou não.
E a arte, essa mocinha e vilã de nossas utopias de perfeição humana, só mostra o quão visível pode ser nosso corpo, divididos entre prazer e medo, angústia e alegria.
Escrito por Érica Marin às 08h04
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Dose
Tudo depende dela.
A dose é que comanda o bem e o mal. É ela que determina o tamanho exato do esforço.
E o prazo de validade?
E a dose?
Demais ou pouca?
Na medida certa ou em demasia? Tudo em exagero sufoca.
E o álcool não suspende a dor, apenas entorpece a saudade.
Até onde você agüentaria?
Escrito por Érica Marin às 07h40
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É preciso voar
Gosto de borboletas. Gosto de vê-las voando. E gosto ainda mais quando me sinto uma delas.
Mas para que chegasse até aqui, foi preciso queimar as asas nas lâmpadas que me fascinaram, foi preciso cair, foi preciso me curar.
É claro que me pergunto o porquê de tudo isso, mas é claro também que não possuo as respostas para minhas muitas dúvidas. E essas respostas podem vir com o tempo, ou quem sabe, nunca chegar. Só quem sabe a que se deve o acaso é quem comanda a vida.
O bater das asas volta mais cedo ou mais tarde visando alcançar o céu.
Livre.
O quebrar dos vidros, o refazer dos sonhos, a alegria de contagiar aos outros e a si mesma com aquele sabor de se doar e de receber de volta. Reciprocidade, amizade, carinho.
É preciso voar. É preciso compreender. É preciso perdoar. É preciso amar. É preciso viver.
“Levante-se
Você não vai cair de novo Está na hora de partirmos
Eu tento voar , não mentir, assim alto, em direção ao céu
Meu sonho é voar Acima do arco-íris Cada vez mais alto
Para minha mente e minha capacidade intelectual”
Despedida
- Vai ser melhor pra mim!
- Eu sei! – disse ele, com lágrimas nos olhos.
Queria chorar e a vontade era quase incontrolável, mas resistiu. Queria beijá-la também, como por vezes fez em impulsos sutis e espontâneos, mas se conteve, como, aliás, fazia com exímia eficácia nos últimos tempos.
Ela estava indo embora. Dessa vez para sempre. Tão para sempre como aquelas inúmeras cartas de amor que mandavam e recebiam. Tão para sempre como todas as promessas que faziam. Tão para sempre como a vida longínqua que pensavam juntos. Mas, como nem todo pensamento também é para sempre, ela agora partia.
Não podia esconder sua felicidade em deixar tudo para trás, enquanto ele se esforçava a cada sorriso em demonstrar naturalidade.
- Boa sorte!
- Obrigada!
Pegou a pequena caixa e saiu. Duas violetas e alguns pertences - era tudo o que restava.
Entrou no carro calada. Foi assim por todo caminho, até acomodar as plantas de forma delicada e carinhosa.
Dois anos e tudo aquilo. Sua vida nunca passara por tantas turbulências. De fato mudara muito, mas agora estava quase completa. Só faltavam alguns detalhes.
De tudo conservaria apenas uma coisa: os tais olhos cor-de-mel que combinavam com as sobrancelhas.
Seu cabelo longo espalhado pelo travesseiro era tocado angelicalmente e o alívio era tanto que adormeceu sem dizer uma palavra. Sabia que quando acordasse tudo estaria apenas na memória e os potes reservados no armário conteriam apenas pessoas doces. Era essa sua nova vida, ao menos por enquanto.
Escrito por Érica Marin às 22h21
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Anjos à espera
Ana Clarah, era esse o nome dela. Parecia feita de cera, mas não era. Também não era uma boneca, apesar de parecer. Era um anjo.
Um anjo entre tantos, na fila de uma encarnação. Ansiosa para vir a terra, ansiosa em cumprir sua missão. Mas para isso era necessário muito mais que vontade – era necessário ser desejada.
E Ana se frustrava toda vez que mais um namoro de sua futura mãe se rompia.
Torcia tanto para que as coisas dessem certo que por vezes foi o próprio cupido e se fez com minucioso empenho neste papel, mas nada. Parecia que ela – a mãe – não se sentia muito à vontade com a idéia de compromissos sérios e longínquos ou então eram os relacionamentos em si que não funcionavam direito. E lá se ia mais uma chance de nascer.
Mas Aninha – como era chamada pelos outros anjos – não se conformava.
Os meses passavam rapidamente e o inverno logo chegou. Em mais uma noite de cinema na Augusta, a mãe de Clarah não resistiu à bebida que mais gostava.
- Um mate-com-leite, por favor!
A voz dela saiu em dueto com a de um rapaz ao seu lado. Olhou e viu que além do gosto pela bebida, que agora era quente pelo frio da cidade, tinha algo em comum com ele. Talvez a cor dos olhos, ou do cabelo. Riram da coincidência da frase e como estavam sozinhos, decidiram tomá-los juntos. E as afinidades não pararam por aí.
Foram citados filmes, livros, exposições e experiências de vida. Gustavo era realmente um homem encantador e parecia a entender majestosamente, a compreendendo em seus devaneios, tristezas e ambições literárias. Ele, jornalista, ela, também.
No momento em que menos esperava, Clarah finalmente tinha a possibilidade de dar uma mãozinha ao destino e colaborar com essa história, para que dessa vez o final fosse feliz. E lá em cima, no alto de suas energias astrais, não somente torcia, como também ansiava pelo desfecho.
Assim são os anjos à espera de uma oportunidade. Zelam, torcem, se entristecem com as nossas atitudes, mas buscam e se enchem de esperança a cada novo encontro. Na verdade, eles constróem parte das histórias e são os verdadeiros responsáveis pelo amor e pelo perdão.
Está certo que nem sempre dão sorte ou acertam. Nem sempre nós humanos correspondemos às suas expectativas e os decepcionamos imensamente, mas aí é que está a diferença entre seres terrestres e celestiais. Eles não se cansam e jamais perdem a fé.
Aninha continua na fila, mas sabe-se perto de realizar finalmente seu sonho. E eles, sua mãe e Gustavo, desfrutam os sonhos que sem querer começaram a brotar por acidente do acaso. A prova concreta de que destino é mais que uma palavra, é um caminho.
“Não é a criança que vem ao mundo, mas sim o mundo que vem para a criança. Nascer é receber de presente o mundo inteiro”.
(Jostein Gaarder)
Escrito por Érica Marin às 22h50
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Todo tempo
Os relógios enlouquecem, talvez como nós mesmos com o passar inevitável das horas. Os dias se somam à história, mostrando que cada minuto pode transformar seu pensamento através de atitudes, suas e das pessoas que te cercam. Estamos, desde que viemos ao mundo, sujeitos ao tempo, todo tempo.
Sujeitos às escolhas, às dúvidas e certezas, constantemente inconstantes ou imutáveis, alternando entre variações que independem de nossas vontades e submersos em oceanos invisíveis e interiores.
Marcam-se as datas, mas jamais o que nelas ocorrem, de forma que todo e qualquer esforço pode ser em vão quando o tempo te traz ou te move conceitos pré-fabricados. A antiga máquina de controle agora serve para te despertar do sono, mas não da cegueira.
Um dia derreteremos todos os relógios do mundo, um a um, e somente assim é que estaremos realmente acordados.
Escrito por Érica Marin às 00h40
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Frente ao novo espelho
O cabelo preso mostrava a nuca. Os olhos verdes marcados pelo rímel e as bochechas rosadas davam um ar saudável e juvenil. Colocou a pulseira preta e branca que há tempos não colocava, o salto alto e saiu de casa com um ar celestial. Sentia uma liberdade inexplicável. Na verdade ela estava se libertando de uma prisão mental e isso a enchia de felicidade. Uma prisão diferente, de lençóis de seda, palavras carinhosas e vazias, créditos em conta.
Não entendia nada do que estava acontecendo, mas já não queria entender. A sensação de poder fazer o que quisesse a entusiasmava, e não iria deixar que pensamentos filosóficos a atrapalhassem dessa vez.
Fazia planos para o futuro, mas tão diferentes agora. Queria ir para Londres, talvez Madrid. Porém, no momento apenas planejava fazer as unhas no sábado e sair para dançar como antigamente.
É, ela estava de volta. Sem satisfações, cobranças, pesos, discussões. Sem críticas, finalmente.
Poderia criar suas teorias em paz e encontrar a razão maior de sua vida, se é que já não a tinha encontrado. Saboreava com gosto cada página dos livros novos e contemplava a força que estava escondendo de si mesma nos últimos meses.
Isso era a verdadeira felicidade: poder ser ela mesma sem se culpar por isso. Contudo, até o espelho já não era mais o mesmo - estava mais colorido, mais animado. Talvez agora refletisse apenas sua imagem, aquela única, individual, insubstituível.
“Nós enxergamos tudo num espelho, obscuramente. Às vezes conseguimos espiar através do espelho e ter uma visão de como são as coisas do outro lado. Se conseguíssemos polir mais esse espelho, veríamos muito mais coisas. Porém não enxergaríamos mais a nós mesmos”.
(Jostein Gaarder)

De onde vem a força
Acordei, como todo mês, com uma dor que além de me deixar sem ar, me contorcia pela cama. Travesseiro apertado, bolsa de água quente, remédio; nada disso fazia efeito. Malditas sejam as cólicas!
E como se não bastasse, ainda tinha que ajeitar o café da manhã, fazer supermercado, levar a filha à escola, inspecionar o trabalho da diarista, vestir a roupa apertada e o sapato de salto, trabalhar o dia inteiro, almoçar em dez minutos, ir ao salão de cabeleireiro e ficar linda para um jantar de negócios do marido à noite.
Era como se na mesa bem arrumada, repleta de pessoas inteligentes e gentis que falam o tempo todo em como os investimentos valem a pena, a minha dor tivesse passado, mas não - estava apenas maquiada, literalmente, no rosto e na espontaneidade de sorrir mesmo querendo chorar.
Ao chegar em casa, animado pelo vestido preto que me deixava atraente, ele ainda tentou fazer amor. Como? Eu pergunto – uma vez que não conseguia nem pensar com tamanha fragilidade e raiva (sim, porque nada mais irritante do que estar na TPM!).
Não é falta de amor, de atração física. Não é que o relacionamento está esfriando, nem tampouco que exista outra pessoa. Sou eu, minhas estranhezas de mulher e minha pura e inocente vontade de me deitar de lado, me encolher como um feto na barriga da mãe e dormir, dormir como um anjinho. Até claro, o despertador insuportável disparar aquele som terrível e começar tudo de novo.
Tentei explicar, respirei fundo e tive todo cuidado do mundo nas palavras. Se ele não entendeu, ao menos foi bem convincente. E quando tudo parecia estar caminhando bem, no meu cochilo costumeiro que antecede o sono, com as mãos macias dele acariciando a minha orelha, ela grita.
Sim, a bebê queria mamar! E como nesta tarefa não há marido que possa ajudar, lá vou eu, capotando de sono.
Já sei toda a programação da Tv de madrugada. E aprendi como mãe de primeira viagem, como é a agonia de um seio que se parte pela falta de costume em amamentar. A cada sugada, a vontade de gritar misturada com o carinho inabalável de ver aquele rostinho tão pequeno matando sua fome.
Bem-vinda ao mundo real! – é o que as pessoas mais maduras me dizem e eu mesma começo a aceitar.
Mas tenho que admitir que apesar de trabalhoso e cansativo, nenhuma compra no shopping me fez mais feliz do que todo esse mundo novo que se abre a cada dia. Experiências únicas que me tornam mulher com M em cada lágrima, sorriso, destempero e zelo.
Ao pensar assim qualquer cólica se torna pequena. Deve ser por isso que dizem que as mulheres são fortes: porque sempre vêem o lado positivo, fazendo a beleza do amor ser maior que qualquer dor que possam sentir, transcendendo os limites de si mesmas para viabilizar a família, a vida.
Escrito por Érica Marin às 01h21
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Enquanto a luz não se apaga
Não é só a lua que é feita de fases. Dizem que as mulheres também, mas na verdade somos todos feitos de centenas de fases, de subidas e quedas.
Não somente isso, somos todos sonhadores utópicos em busca da felicidade, mas nem sempre ela está onde pensávamos. É exatamente assim que quebramos a cara. E exatamente assim também é que nos reerguemos e mudamos a estratégia. O roteiro de sempre que cansa passa a ter nova forma e a estrada já não é mais a mesma.
Mas nem nós mesmos somos eternamente iguais, nosso corpo, nossos pensamentos, nossos planos. Tudo muda, tudo soma, tudo subtrai. E o que fica são os memoráveis momentos. Pedaços, como sempre digo. E somos, sem dúvida ou vergonha, apenas pedaços de carne costurados com retalhos de pessoas importantes.
À essas pessoas é que normalmente levantamos pela manhã e nos vestimos, nos dedicamos ao trabalho, aos estudos e na construção de nossa sabedoria para podermos nos tornar capazes de levantar a cabeça um dia e saber que fomos pessoas dignas. À essas pessoas que lemos todos os livros, escrevemos cada texto, ouvimos cada música, admiramos cada flor. E não distante, à essas pessoas que abdicamos.
À elas e a nós mesmos. Ao tudo e ao nada.
Abdicamos da razão, das palavras ditas e reditas, dos sonhos puros que se tornam martírios invisíveis de culpa e frustração. E abdicamos porque não encontramos outra saída senão fechar a cortina, pegar a valise e ir embora sem olhar para trás.
De bagagem apenas elas, as recordações, as fotos, os bichinhos de pelúcia e os lugares. Porque por mais que joguemos todos eles fora em sacos de lixo preto, jamais se apaga o que se vive, por mais que isso te consuma pouco a pouco, dia-a-dia.
E assim a vida se segue. Ora feliz, ora triste. Ora te dando aquilo que você tanto quis, ou quem sabe o que nem esperava. Ora te roubando o que lhe era mais valioso, ou tirando o que não lhe era devido. No final, seremos apenas almas. Algumas vagas, outras compostas. Almas que aprenderam ou almas que se recusaram a lição. E teremos pela frente ainda muito o que passar, até que Ele saiba quando parar. Enquanto isso não adianta fugir, não adianta se entregar, mas há de aceitar e aguardar a cura, pois a sanidade dura o tempo próprio que a luz ainda pode brilhar.

Santo pão
As folhas caídas na tarde de outono faziam um barulho suave, como o desembrulhar de um presente. Sexta-feira, treze de junho, dia de Santo Antônio.
Não que ela acreditasse nessas coisas, mas não custava solicitar uma ajudinha divina, afinal passara mais uma vez o dia anterior, dos Namorados, sozinha.
O fato não era o dia em si, nem as pessoas que não se desgrudavam nas ruas e os corações espalhados pelas lojas dos shoppings. Não eram as flores que saltavam lindas e sorridentes aos seus olhos na floricultura e muito menos aquela noite gostosa que fazia convite a um bom drinque de maracujá. A culpa era do seu gênio, ou quem sabe, do destino que fugia de suas mãos e seus poderes.
Apesar de se achar gorda durante toda tpm, de querer ter mais cinco centímetros de altura e menos cinco de cintura, ela se achava bonita. Assim, meio sem jeito, atrapalhada e espalhafatosa, mas bonita. O jeito com que gesticulava as mãos quando falava chamava a atenção dos homens, mas ela definitivamente não se achava apaixonante. Era mandona, orgulhosa, e isso afastava dela os relacionamentos de longa duração. Quando não eram eles que se cansavam de tanta exigência, era ela.
Mas quer saber? Nem ligava. Ou ao menos, demonstrava que não.
Porém, lá no fundo dormia um choro entalado de quem, mais uma vez, teve seu sonho interrompido. Fazer o quê? – se questionava. E assim, nunca dera sequer o braço a torcer e disse a verdade a eles. Achava inútil se humilhar pela atenção do sexo oposto, uma vez que são todos iguais.
Mas, parece que antes tudo isso era mais fácil. De uns tempos pra cá a sua sensibilidade havia aumentado. Será por causa da idade? Será que porque todas as suas amigas já estavam casadas e com filhos e ela ainda nem sabia dizer o que era ter uma aliança dourada na mão?
Na verdade ela só sabia sobre o aumento dos preços no supermercado, sobre a alta do dólar e sobre o governo Lula. Sabia sobre todas as marcas de sapato e os preços das bolsas da Daslu. Sabia tanto e ao mesmo tão pouco que se sentia burra quando em festas de família o assunto era casa e marido. Para rebater suas deficiências dizia ser independente e tentava se enganar: “isso tudo é bobagem”.
Talvez fosse apenas uma reação natural da modernidade, ou quem sabe uma inspiração exagerada daquelas capas de revistas femininas, onde esquecem que antes de ser uma profissional, a mulher tem desejos de mulher e suas necessidades prioritárias como amor e carinho, pois ninguém no mundo pode ser feliz sozinha. E era exatamente nisso que ela estava pensando no bendito dia do tal santo casamenteiro. Se fosse besteira ou não, dessa vez iria arriscar e decidiu fazer uma promessa.
Foi à igreja e entrou em uma fila gigantesca em busca de um mísero pedacinho de pão velho, tal qual aprendera ali o significado: fazia milagres!
Não acreditava muito, mas deveria haver algum sentido para que aquelas centenas de solteiras se sacrificassem naquela fila e então, agüentou firmemente a espera.
Chegando sua vez tentou imaginar como ela comeria o tal pedaço, que não parecia nada com um belo lanche do Mac Donald’s. Entrou na primeira padaria que enxergara para com um copo de leite poder cumprir a missão e atingir o milagre de não ficar para titia. Ao seu lado no balcão um homem ria ao notar o pedaço de pão em suas mãos e interliga-lo à imensa fila do lado de fora. Ela nem percebeu, e ao pedir o leite, ele pediu o café, em uma sincronia de palavras surpreendente.
Pois é, ele era o café, ela o leite. Visivelmente diferentes. Ele alto, ela baixa. Ele sério, ela cativante. Começaram a conversar e ela lhe contou sua aventura atrás do pequeno pãozinho. Pela primeira vez foi sincera com um desconhecido sem ter intenções. Ele se divertia a cada palavra que ouvia e a achou interessante por isso mesmo, o humor simples de uma mulher comum. A beleza ali nem era tão importante, mas não seria mentira afirmar que ambos haviam notado os pontos físicos que lhe agradavam mutuamente.
Trocaram telefone, marcaram alguns drinques e conversavam de tudo a cada novo encontro, até que em uma bela noite de outono, dia de Santo Antônio, há exatamente um ano após terem se conhecido, começaram a namorar. Se casaram e agora estão ansiosos pelo nascimento do primeiro filho, que se chamará – como não poderia deixar de ser – Antônio, em homenagem ao santo que os uniu.
Hoje ela ministra palestras motivacionais para as solteiras que ainda não encontraram o príncipe encantado. Conta sua história, incentiva a autoconfiança e o acaso e diz que o segredo é aguardar o momento certo para florir. Continua não acreditando em superstições, mas todo o ano não deixa de ofertar uma vela cor-de-rosa (cor do amor) a ele que se tornou seu santinho de devoção. Coloca tudo no altar que fez seu marido construir em casa junto a um pedaço de papel com a frase: “Agradeço o milagre recebido”.
Escrito por Érica Marin às 00h41
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Incondicional
Seria mentira se dissesse que só vislumbro o feio. Admiro a beleza e a sinto leve em meus dias. Contida em livros, fotos, filmes, textos, quadros e toda forma válida de expressão, vejo o quanto há ainda por vir. E por mais que tente me convencer que não, ainda acredito na bondade. E o amor.
Hoje, dia dos namorados, pode parecer clichê falar sobre ele, esse sentimento capaz de nos levar ao céu e ao inferno ao mesmo tempo, mas falemos e sejamos clichês então.
E já que o amor anda tão banalizado, falemos do melhor: o incondicional.
Aplicável no amor materno – ao menos naquele de fato – e alguns raros encontros entre casais, inabalavelmente une ou se mantém ainda que distante. E se acredito nele, é porque já tive provas concretas de que existe, senão, diante de meu ceticismo e niilismo já teria se dissolvido. Provas não, tenho exemplos. Exemplos vivos e diários como meus avós. Saborearam a vida jovem e agora aguardam com serenidade o fim de todas as fases, passadas majoritariamente juntos, e mais que isso, divididos. Na verdade eles são pedaços um do outro que jamais serão separados, mostrando através do tempo que a felicidade conjunta e a construção de uma vida amorosa feliz é possível. Está certo que os tempos são outros e agora tudo anda muito confuso, mas sabe-se lá o quê esperar do destino ou da infinita sabedoria dos deuses, que devem estar a um pensamento de distância de nós, e um pensamento longínquo demais para que possamos alcançá-los.
Para isso, mais que um dia que os casais saem para comemorar, comprar flores e champanhe ou simplesmente nem se recordar – pois nem todo mundo é romântico – a análise deveria começar de dentro para fora a fim de comprovar se estamos sendo incondicionais. Amar sem a pretensão de receber o amor da mesma forma, ter paciência para esperar o tempo do outro e a maturidade que nem sempre chega aos dois de uma só vez e a constatação de que uma vida não se faz de minutos tensos.
Queria com esse, apenas homenagear o amor sem palavras, sem cartas e sem presentes. O amor que antes de nos tornarmos adultos, já existia. Aquele que conheci quando ainda era uma garota que corria pelo sítio do meu avô. Falo deste mesmo, falo dele. Falo do amor que sempre senti, mas que nunca ouvi ou falei. Falo do que sempre presenciei. Do casamento antigo, dos filhos criados com tanto esforço, da educação exemplar, do silêncio que muito ensina, da coragem com os problemas, da força diante das perdas, da fé diante de Deus. E da calma, da aceitação que sufoca o desespero e que nos faz ver que jamais estaremos longe, ainda que separados pela distância e pelas muitas vidas.
Este homem faz parte da beleza primordial da vida e da integridade que poucos conhecem. Faz parte de mim, e fará sempre. Meu avô, mais que um namorado que ame com intensidade e carinho, merece especial atenção e é a ele que dedico todo meu pensamento e todo meu amor incondicional neste dia.

O Segredo
Tenho que admitir que admiro a forma das pessoas se comportarem. Estão sempre alegres, ou fingem estar. Estão sempre dispostas, ou fingem estar. Na verdade acho que admiro mesmo é esse dom de fingir que elas tem. Será que assistem muita novela e querem trazer à vida real um pouco de ficção e artes cênicas?
Não me considero uma pessoa adaptável, muito pelo contrário, e desta forma as passagens na minha vida se tornam únicas, independente do tempo em que acontecem.
Embora não seja mais uma adolescente há algum tempo, ultimamente tenho tido experiências que me fazem descobrir o quanto não tinha visão nenhuma desse mundo “adulto” em que vivemos, e o que mais me chamou a atenção foi a vida profissional.
Os adultos se esquecem de tudo que foram quando crianças e adolescentes e de tudo que aprenderam em casa, passando a se comportar da maneira mais egocêntrica possível quando começam a trabalhar. Eles não se importam mais com as pessoas em si, mas com os números que elas serão capazes de produzir ou não. Passam a se sentir importantes, auto-suficientes e de uma inteligência insubstituível, mesmo quando cometem os maiores erros de português já vistos. Isso sem contar a hipocrisia e falsidade existentes nesse meio. Todo mundo se odeia e vive aos corredores e toilette’s falando mal reciprocamente, mas se abraçam, se beijam e trocam apelidos carinhosos durante o expediente. No fundo, quando te perguntam se você têm se sentido bem, querem mesmo é saber das novidades, dos baffon’s para contar aos demais. E pra eles, essa característica é natural e necessária para se “crescer” na empresa.
Discordo dessa tese. Aliás, discordo com toda minha força desse capitalismo ridículo que vemos todos os dias. É um absurdo sermos tratados assim, como máquinas de serviços gerais alienadas e sorridentes. Acho absurdo também, e vergonhoso, uma pessoa racional comprar um livro intitulado “O Segredo”, quando na verdade o que esse best-seller americanizado diz é aquilo que |
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